domingo, 11 de maio de 2014

Sixty-two plus twenty-two, equals eighty-four


Estava voltando pra casa, meio que na inércia de ficar triste. Voltava do hospital, tinha acabado de me despedir de meu pai que malmente me respondeu... Doía ainda mais exatamente por isso, por ele não estar me reconhecendo direito. Dói ver uma pessoa próxima perdendo a consciência. Dói estar sendo esquecido por quem se ama.
         Estava ouvindo uma música de Jethro Tull. Baixei um disco deles ontem, pelo nome mesmo, aleatoriamente; e que disco! Lindo em demasia, cada música. Enfim, eu ouvia a penúltima música desse disco, uma com uma introdução meio triste. Peguei o caminho mais longo para voltar pra casa, tanto para emagrecer um pouco, quanto porque o caminho é mais bonito, e também porque eu precisava pensar sobre meu pai e como estou lidando com sua doença.
         Em determinando ponto, o disco começou a se repetir, ou estava tocando a última música, não me lembro bem; a música tinha uns sons rápidos e bem dançantes. Comecei a andar mais rápido. Andava rápido porque a música era boa e eu não podia dançar no meio da rua como nos musicais.
         Apesar do meu ritmo, eu estava bastante meditabundo, meu olhar estava bastante distraído. Um velho de não mais de um metro e meio passou por mim, andando na mesma direção. Continuei distraí... Um velho? Passando por mim?? Nessa velocidade??? Passei a prestar atenção, era um velho muito baixinho com uma pasta na mão. Para me entreter por alguns segundos, decidi que passaria do velhinho. Passar dele não me deu trabalho algum, pratiquei corridinhas na esteira durante muito tempo; e, além do mais, eu nunca perco corridas com transeuntes.
         Depois de ter passado do velho, mergulhei no disco novamente: o cara da flauta estava sendo genial, o diferencial da banda. O vocalista me lembrou o Bowie, só que ainda melhor;  as letras, pelo que eu conseguia entender, eram muito boas também. Pensei em chegar em casa, pegar um disco do Bowie e compar... Não é que o velho me passou outra vez? E dessa vez estávamos andando absurdamente rápido. E ele era velho e estava com um passo estupidamente rápido. Era uma declaração de guerra!
         Tentei passar por ele ainda na calçada, mas estava realmente difícil, o velho era bom. Naniquinho, rapaz.... Apressado como o coelho de Alice. E tinha o passo forte, daqueles passos que dão um repuxo no corpo inteiro quando os pés alcançam o chão. Tive que ir para o meio da pista, à direita da calçada para tentar a ultrapassagem. Mas, acreditem companheiros, o velho veio me barrar a passagem!!! Contudo, habilmente voltei para a calçada e larguei meu oponente lá, no meio dos carros. Ele voltou. Estávamos lado a lado praticamente. Andamos um tempo. Fui para a direita de novo e dei o gás da juventude. Passei o velho. Mas passei por bem pouquinho, e eu ainda tinha que voltar para a calçada para vencer de verdade. Voltei para a calçada.  Parei na faixa de pedestres e ele me alcançou. Andei mais um pouco, ainda na frente dele, meu ponto de ônibus era a uns metros dali; fui pra lá. Eu havia vencido.
         Cheguei ao ponto, ainda com os fones no ouvido, e parei triunfante: me sentia bem pela música, pela vitória... Talvez eu tenha ficado com um olhar de superioridade em algum momento. O velhinho vinha andando em minha direção, finalmente diminuindo o passo. Ia passar direto por mim, mas hesitou por um momento, parou e disse algo. Estava com os fones, não ouvi. Achei que era alguma coisa me repreendendo por apostar corrida com um idoso, algo assim. Tirei os fones e pedi pra ele repetir o que havia dito.
         “Tenho que testar esses 84 anos!” foi o que o velhinho disse, sorrindo.
         Eu ri também. Ri e dei um tapinha amigável no ombro dele. E lá se foi o velhinho, novamente apressado, não porque não tinha tempo para a vida como o coelhinho de Alice, mas certamente porque tinha outra corrida para apostar com uma pessoa randômica.

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