Estava eu pensando
sobre memória... é curioso demais a memória, estamos fazendo uso dela o
tempo todo. O curso que eu faço e mesmo
a sociedade me impelem a pensar “memória” como capacidade, como lugar no
cérebro onde se armazena as coisas simplesmente. É o primeiro pensamento que me
ocorre: a memória como um lugar/espaço onde vai se jogando as coisas lá, aí
todos nós temos uma capacidade, podemos excluir e incluir as coisas, sendo que
nem sempre isso está sob nosso poder.
Pois sim, pensando
sobre as coisas que eu lembro e que eu não lembro, concluo que este não é um
processo tão simples, sei lá! Nem tão objetivo quanto meu primeiro pensamento
sobre memória. Não me parece que seja uma simples área no cérebro, que armazena
coisas e está suscetível a perder capacidade com o tempo... Talvez seja isso
mesmo, mas, veja, o processo de lembrança e esquecimento me parece muito
subjetivo... muito seletivo. Eu sei
que tem coisas que são de fácil acesso, como a forma das letras e coisas de
difícil acesso como o nome da bróder lá do contato. Sei que tem coisas que são,
conscientemente, praticamente impossíveis de serem acessadas. Mas, falando das
coisas possíveis, dos fatores principais dos anos que vivi, por exemplo. Aí que
a coisa passa a ficar bastante subjetiva, seletiva.
Minha memória sempre
foi uma bosta. Nunca, nunca, nunca, pelo que consigo me lembrar (rs), minha memória
prestou. Isto é, em comparação com as pessoas ao meu redor, claro. Nunca fui
bom em lembrar coisas nem a curto, nem a longo prazo. Eu nunca tive nenhum
problema muito patológico, como esquecer como se faz alguma coisa, esquecer
nome de pessoas próximas, mas nunca lembrei os estados e capitais nem da Região
Nordeste. Talvez se eu tivesse visitado esses lugares eu saberia os nomes.
Sempre soube que minha memória olfativa e auditiva poderiam ser perfeitas, mas
essas habilidades não são exploradas em nossa cultura, então... E eu sempre fui
meio hipocondríaco, ou seja, em algum ponto de minha vida eu achei que tinha Alzheimer,
mas pelo menos eu achava que eu tinha Alzheimer (hihih fiz mesmo uma piada de
Alzheimer).
Eu nunca fui bom em
apresentar seminários por isso, é fato que eu nunca vou lembrar o que eu tenho
que falar, por mais que eu domine o assunto. E essa certeza só piora as coisas,
porque a única coisa que vejo quando vou apresentar um seminário nervoso é o
vazio, o vazio e a obrigação de falar. Esse é ainda o tipo mais simples de
esquecimento, o esquecimento de coisas específicas, que tem pressão para eu
lembrar. O esquecimento é facilmente justificável.
Mas e as coisas que
estão na minha Gestalt? As coisas que simplesmente estão claras para mim.
Agora, por exemplo, o que está claro para mim agora é o coletivo, as pessoas
queridas, muitas pessoas interessantes, sentir-me bem a maior parte do tempo,
sair de casa, casa de Amanda, Amanda, vida está muito intensa, sonho, poesia,
surrealidade. A vida para mim está sendo basicamente isso. Quando eu digo isso
não é que eu só esteja vivendo isso ou só aberto a isso. Eu só tô dizendo que é
isso que eu tenho claro agora. Pode mudar a qualquer momento, mas é isso aí. E mesmo
desses elementos que citei eu lembro e esqueço de tanta coisa... Mas eles tão
aqui, sabe?! Em evidência! É difícil explicar.
Por que eu não tenho claramente em minha
memória o aniversário que eu passei chorando em 2012? Por que não está mais na
cabeça as trezentas situações melancólicas antes da Ufba? Por que meu pai não
está diretamente presente? Eu sei que esses elementos estão presentes na forma
como eu vivo, “eu” só existo por causa disso tudo, sei bem... Mas por que muito
dessas coisas não estão claras e outras sim? Claras... As ternurinhas que senti
por Clara andam bem vivas em minha memória ultimamente... Já os maus que passei
pela não correspondência andam tão longes, parece que aconteceu com outra
pessoa...
Parece que o processo
de lembrar e esquecer também está diretamente ligado com a minha história,
sabe?! Eu não lembro simplesmente lembro das coisas. Eu esqueço desgraçadamente,
lembro docemente. Eu esqueço docemente, lembro desgraçadamente... Outro dia estava
bem triste por um motivo, daí me lembrei do solo de uma música do Dream
Theater. Eu não sabia qual era o nome da música direito, até porque só lembrei
de trechos do solo. Estava bem agoniado lá no meio da aula, tava horrível, eu
só conseguia lembrar do solo e da imagem que me machucava tanto. Eu precisava
ouvir aquele solo inteiro, precisava saber qual era a música... Saí de sala
para ouvir a música. Achei! Era Enemy Inside (Link 1). Já tinha ouvido essa
música algumas vezes, mas dessa vez parei para prestar atenção na letra... Puta
que pariu!
I'm running from the enemy inside
(…)
These suffocating memories
Are etched upon my mind
And I can't escape from the enemy inside
Isso mesmo.
Exatamente essa letra! Por que eu me lembrei logo dela? E do solo, véi, não foi
da letra! Terá sido coincidência? Pode ser, mas acho que não. Creio que era eu
lembrando doce/desgraçadamente de algo. O bom de lembrar disso foi que passei a
pensar justamente no tema desse texto, e era bom ouvir a música. Ainda lembrei
de outra, que é, talvez, uma das músicas que mais ouvi, loopeei ela eternamente
quando estive triste: Back of Your Head de Cat Power (Link 2).
burnt flavor…
you hold the big picture so well…
can't you see we're that we're going to hell?
you hold the big picture so well…
can't you see we're that we're going to hell?
E não é isso? Lembro
quando fiquei repetindo essa música, inicialmente eu adorei o som dela, bem
triste e real... A voz da Chan, muito real e dolorida... Tem horas que a vida é
bem assim. Daí passei a prestar atenção na letra, puta que pariu, era
exatamente isso! Fixei exatamente no trecho acima, pesquisei o que significava “big
picture” para me certificar... Era exatamente isso! É isso que eu sempre fiz...
Acho que todos fazemos isso. Nós lembramos miseravelmente da imagem perfeita,
toda a situação minuciosamente, da forma mais desgraçada possível, para nos
entristecermos mais ainda. Lembrava-me perfeitamente
da imagem naquele dia, lembro agora e ainda dói bastante. Não podemos ver que
estamos indo para o inferno?? Isso unicamente nos faz mal, véi! Não fazia
sentido nenhum eu estar ali, no meio da aula, lembrando da situação; mas eu não
conseguia evitar também, lembrava perfeitamente, cada detalhe, o cheiro, a
desgraça do cheiro! Cada barulhinho... Eu estava me conduzindo pro inferno! Pergunto
de novo: não é isso que fazemos? Por algum motivo, quando convém, selecionamos,
mesmo que inconscientemente, uns pedaços de memórias né não?! Quando convier de
novo me lembrarei da cena miserável, aposto! Me esqueci de muita, muita, muita,
muita, absurdamente muita coisa legal que envolvia essa memória ruim que me fez
ficar triste. Ignorei a maior parte, justamente para evidenciar aqueles sons,
aquela cena. Olhe que desgraça! Muitas de minhas memórias são evocadas assim. Mas claro que isso serve tanto pra desgraça, quanto para o deleite. Então, deixa vir!
Lembrando
de mais músicas, bandas e seu sentido em minha vida, me vem a cabeça Jimi
Hendrix. Ele já foi o sentido de meus ouvidos existirem, quase. Hoje não ouço
quase nada dele, ainda gosto pra caralho, mas o sentido de vida, a evidência,
já não existem. É uma viagem... Regina Spektor me encorajou bastante para eu
aguentar a vida. Mason Jennings, caralho! Muito do que sou hoje tem a ver com
esse cara. Cat Power... As memórias de todos essas pessoas, principalmente os
de antes de Cat Power, são muito remotas... Acho que resolvi falar de música
porque é realmente importante para mim, para o jeito com que encaro a vida
mesmo! Depois que passei a andar com fones e músicas baixadas, eu mudei muito.
Nem consigo lembrar de como era a vida cotidiana antes disso, por sinal. O
tempo que eu achava Mason uma das pessoas mais admiráveis do mundo parece tão
tão remoto, tão, tão "não eu". E eu não estou criando oposição a este
"não eu", eu adoro o Mason e meu processo de mudança também; mas
estou destacando que a diferença. Diferença ao ponto de ser estranho notar que
essa pessoa do passado era eu. Era eu em 2010/2011, não faz tanto tempo assim.
Mas por que essas coisas tão importantes estão tão “encobertas” a ponto de ser
estranho? Não sei direito... Às vezes fica realmente complicado saber... Talvez
seja esse lance de esquecer e lembrar quando convém, mas talvez só minha
memória lixo mesmo....
Minha memória é tão ruim que eu pensei nesse texto várias vezes, decidi que escreveria de fato ontem, quando vi Mr. Nobody; mas devo ter me esquecido de muita coisa que colocaria aqui... Mas estou satisfeito, esse é o meu jeito de viver mesmo, esquecendo muita coisa e lembrando várias outras, mesmo que só dos cheirinhos e barulhinhos...
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