domingo, 11 de maio de 2014

Memória

Estava eu pensando sobre memória... é curioso demais a memória, estamos fazendo uso dela o tempo  todo. O curso que eu faço e mesmo a sociedade me impelem a pensar “memória” como capacidade, como lugar no cérebro onde se armazena as coisas simplesmente. É o primeiro pensamento que me ocorre: a memória como um lugar/espaço onde vai se jogando as coisas lá, aí todos nós temos uma capacidade, podemos excluir e incluir as coisas, sendo que nem sempre isso está sob nosso poder.

Pois sim, pensando sobre as coisas que eu lembro e que eu não lembro, concluo que este não é um processo tão simples, sei lá! Nem tão objetivo quanto meu primeiro pensamento sobre memória. Não me parece que seja uma simples área no cérebro, que armazena coisas e está suscetível a perder capacidade com o tempo... Talvez seja isso mesmo, mas, veja, o processo de lembrança e esquecimento me parece muito subjetivo... muito seletivo. Eu sei que tem coisas que são de fácil acesso, como a forma das letras e coisas de difícil acesso como o nome da bróder lá do contato. Sei que tem coisas que são, conscientemente, praticamente impossíveis de serem acessadas. Mas, falando das coisas possíveis, dos fatores principais dos anos que vivi, por exemplo. Aí que a coisa passa a ficar bastante subjetiva, seletiva.

Minha memória sempre foi uma bosta. Nunca, nunca, nunca, pelo que consigo me lembrar (rs), minha memória prestou. Isto é, em comparação com as pessoas ao meu redor, claro. Nunca fui bom em lembrar coisas nem a curto, nem a longo prazo. Eu nunca tive nenhum problema muito patológico, como esquecer como se faz alguma coisa, esquecer nome de pessoas próximas, mas nunca lembrei os estados e capitais nem da Região Nordeste. Talvez se eu tivesse visitado esses lugares eu saberia os nomes. Sempre soube que minha memória olfativa e auditiva poderiam ser perfeitas, mas essas habilidades não são exploradas em nossa cultura, então... E eu sempre fui meio hipocondríaco, ou seja, em algum ponto de minha vida eu achei que tinha Alzheimer, mas pelo menos eu achava que eu tinha Alzheimer (hihih fiz mesmo uma piada de Alzheimer).

Eu nunca fui bom em apresentar seminários por isso, é fato que eu nunca vou lembrar o que eu tenho que falar, por mais que eu domine o assunto. E essa certeza só piora as coisas, porque a única coisa que vejo quando vou apresentar um seminário nervoso é o vazio, o vazio e a obrigação de falar. Esse é ainda o tipo mais simples de esquecimento, o esquecimento de coisas específicas, que tem pressão para eu lembrar. O esquecimento é facilmente justificável.

Mas e as coisas que estão na minha Gestalt? As coisas que simplesmente estão claras para mim. Agora, por exemplo, o que está claro para mim agora é o coletivo, as pessoas queridas, muitas pessoas interessantes, sentir-me bem a maior parte do tempo, sair de casa, casa de Amanda, Amanda, vida está muito intensa, sonho, poesia, surrealidade. A vida para mim está sendo basicamente isso. Quando eu digo isso não é que eu só esteja vivendo isso ou só aberto a isso. Eu só tô dizendo que é isso que eu tenho claro agora. Pode mudar a qualquer momento, mas é isso aí. E mesmo desses elementos que citei eu lembro e esqueço de tanta coisa... Mas eles tão aqui, sabe?! Em evidência! É difícil explicar.

Por que eu não tenho claramente em minha memória o aniversário que eu passei chorando em 2012? Por que não está mais na cabeça as trezentas situações melancólicas antes da Ufba? Por que meu pai não está diretamente presente? Eu sei que esses elementos estão presentes na forma como eu vivo, “eu” só existo por causa disso tudo, sei bem... Mas por que muito dessas coisas não estão claras e outras sim? Claras... As ternurinhas que senti por Clara andam bem vivas em minha memória ultimamente... Já os maus que passei pela não correspondência andam tão longes, parece que aconteceu com outra pessoa...

Parece que o processo de lembrar e esquecer também está diretamente ligado com a minha história, sabe?! Eu não lembro simplesmente lembro das coisas. Eu esqueço desgraçadamente, lembro docemente. Eu esqueço docemente, lembro desgraçadamente... Outro dia estava bem triste por um motivo, daí me lembrei do solo de uma música do Dream Theater. Eu não sabia qual era o nome da música direito, até porque só lembrei de trechos do solo. Estava bem agoniado lá no meio da aula, tava horrível, eu só conseguia lembrar do solo e da imagem que me machucava tanto. Eu precisava ouvir aquele solo inteiro, precisava saber qual era a música... Saí de sala para ouvir a música. Achei! Era Enemy Inside (Link 1). Já tinha ouvido essa música algumas vezes, mas dessa vez parei para prestar atenção na letra... Puta que pariu!

I'm running from the enemy inside
(…)
These suffocating memories
Are etched upon my mind
And I can't escape from the enemy inside

         Isso mesmo. Exatamente essa letra! Por que eu me lembrei logo dela? E do solo, véi, não foi da letra! Terá sido coincidência? Pode ser, mas acho que não. Creio que era eu lembrando doce/desgraçadamente de algo. O bom de lembrar disso foi que passei a pensar justamente no tema desse texto, e era bom ouvir a música. Ainda lembrei de outra, que é, talvez, uma das músicas que mais ouvi, loopeei ela eternamente quando estive triste: Back of Your Head de Cat Power (Link 2).

burnt flavor
you hold the big picture so well…
can't you see we're that we're going to hell?

E não é isso? Lembro quando fiquei repetindo essa música, inicialmente eu adorei o som dela, bem triste e real... A voz da Chan, muito real e dolorida... Tem horas que a vida é bem assim. Daí passei a prestar atenção na letra, puta que pariu, era exatamente isso! Fixei exatamente no trecho acima, pesquisei o que significava “big picture” para me certificar... Era exatamente isso! É isso que eu sempre fiz... Acho que todos fazemos isso. Nós lembramos miseravelmente da imagem perfeita, toda a situação minuciosamente, da forma mais desgraçada possível, para nos entristecermos mais ainda. Lembrava-me  perfeitamente da imagem naquele dia, lembro agora e ainda dói bastante. Não podemos ver que estamos indo para o inferno?? Isso unicamente nos faz mal, véi! Não fazia sentido nenhum eu estar ali, no meio da aula, lembrando da situação; mas eu não conseguia evitar também, lembrava perfeitamente, cada detalhe, o cheiro, a desgraça do cheiro! Cada barulhinho... Eu estava me conduzindo pro inferno! Pergunto de novo: não é isso que fazemos? Por algum motivo, quando convém, selecionamos, mesmo que inconscientemente, uns pedaços de memórias né não?! Quando convier de novo me lembrarei da cena miserável, aposto! Me esqueci de muita, muita, muita, muita, absurdamente muita coisa legal que envolvia essa memória ruim que me fez ficar triste. Ignorei a maior parte, justamente para evidenciar aqueles sons, aquela cena. Olhe que desgraça! Muitas de minhas memórias são evocadas assim. Mas claro que isso serve tanto pra desgraça, quanto para o deleite. Então, deixa vir!

Lembrando de mais músicas, bandas e seu sentido em minha vida, me vem a cabeça Jimi Hendrix. Ele já foi o sentido de meus ouvidos existirem, quase. Hoje não ouço quase nada dele, ainda gosto pra caralho, mas o sentido de vida, a evidência, já não existem. É uma viagem... Regina Spektor me encorajou bastante para eu aguentar a vida. Mason Jennings, caralho! Muito do que sou hoje tem a ver com esse cara. Cat Power... As memórias de todos essas pessoas, principalmente os de antes de Cat Power, são muito remotas... Acho que resolvi falar de música porque é realmente importante para mim, para o jeito com que encaro a vida mesmo! Depois que passei a andar com fones e músicas baixadas, eu mudei muito. Nem consigo lembrar de como era a vida cotidiana antes disso, por sinal. O tempo que eu achava Mason uma das pessoas mais admiráveis do mundo parece tão tão remoto, tão, tão "não eu". E eu não estou criando oposição a este "não eu", eu adoro o Mason e meu processo de mudança também; mas estou destacando que a diferença. Diferença ao ponto de ser estranho notar que essa pessoa do passado era eu. Era eu em 2010/2011, não faz tanto tempo assim. Mas por que essas coisas tão importantes estão tão “encobertas” a ponto de ser estranho? Não sei direito... Às vezes fica realmente complicado saber... Talvez seja esse lance de esquecer e lembrar quando convém, mas talvez só minha memória lixo mesmo....

Minha memória é tão ruim que eu pensei nesse texto várias vezes, decidi que escreveria de fato ontem, quando vi Mr. Nobody; mas devo ter me esquecido de muita coisa que colocaria aqui... Mas estou satisfeito, esse é o meu jeito de viver mesmo, esquecendo muita coisa e lembrando várias outras, mesmo que só dos cheirinhos e barulhinhos...
  



Nenhum comentário:

Postar um comentário